Haicais Visuais

trabalhos que mesclam design, arte e poesia

Shine

Novo cartaz analisado

Volver - leia e escolha o próximo

Churches

Marcia Okida - arte e design

Design, cor e arte nunca se separam

Churches

design e tatuagens

as mandalas e seus simbolos

Civic Involvement

Revista Estar Bem

artigos sobre cores

Civic Involvement

presente especial

com muita arte e design

Civic Involvement

Na ZUPI

artigos sobre design

Civic Involvement

Sobre Coisas e Design

"artigos para o Artefatocultural"

Action

• Noite Estrelada é sobre meu trabalho e minhas paixões. Experimente cada área acima e espero que goste.

Mandalas, tatuagens e design

Revista Estar Bem artigos sobre cores

leia...

• Minha Namorada

— Carolina, queremos te fazer um convite.

— Hummm… um convite!

— …Que você participe, cantando duas músicas, num show em homenagem a Luiz Roberto.

— Luiz Roberto?… Do grupo… Os Cariocas?…

— É!

Não podia acreditar. Cantar em homenagem a Luiz Roberto? E ainda convidada pelo Clube do Choro de Santos?

— Mas eu só canto há quatro anos… Estou aprendendo, ainda.

— Você consegue, vai em frente!

O show seria realizado em junho de 2006, no Clube dos Ingleses de Santos. Se chamaria O Encontro — Homenagem ao Músico Luiz Roberto.

Só de pensar, Carolina sentia um frio no estômago.

O Encontro foi escolhido por ser o mesmo nome do show de 1962, no Rio de Janeiro, na boate Au Bon Gourmet, onde, pela primeira vez, Vinicius de Moraes se apresentou publicamente cantando. Na época, o poeta era também diplomata e por isso foi obrigado a usar terno e gravata. Além de Vinicius, foi também a primeira vez que se juntavam num mesmo palco Tom Jobim, João Gilberto e Os Cariocas, em um show que colocou o grupo — definitivamente — entre os grandes nomes da Bossa Nova.  Foi nesse show que Garota de Ipanema, a música de Tom e Vinicius, foi apresentada pela primeira vez.

Tudo isso deixava Carolina aflita. O show O Encontro, de 2006, tinha a aura do passado, mas de modo mais dramático — era uma homenagem a Luiz Roberto, que entrou para Os Cariocas exatamente naquela noite.

O grupo existe desde 1942, mas passou por várias formações, sendo a formação com Luiz Roberto uma das mais conhecidas. Na noite do show histórico, de 1962, um dos integrantes, Waldir Viviani, adoeceu e, por isso, Luiz Roberto — cantor, violonista e contrabaixista — foi incorporado ao grupo. Ele permaneceu em Os Cariocas até 1988, quando faleceu em 20 de outubro, durante um show na boate Jazzmania.

Alguém presenciara tudo isso e estaria no dia da apresentação de Carolina: Herlinha, a viúva de Luiz Roberto.

No dia do primeiro encontro com os músicos, para definir o repertório e  fazer os arranjos, Carolina disse:

— É difícil escolher, são todas perfeitas.

Depois de rever arranjos, finalmente fez a escolha. Agora, tinha de ensaiar e…


7 de junho de 2006, 21 horas.  O salão nobre do Clube dos Ingleses de Santos estava lotado.

Havia uma grande mesa com discos e fotos históricas ao fundo.
Os músicos se aquecendo:

Marcos Canduta (violão), Marcio Rampim (contrabaixo acústico), Roberto Bendas (sax e flauta), Arrepiado (percussão), Manoel José dos Santos Souto (viola brasileira).

Ao contrário de Carolina, os cantores estavam aparentemente tranqüilos:

Celso Lago, Jorge Maciel, Lygia Maria, Nadja, Rafaella Laranja, Rosângela Ribeiro.

O repertório reproduzia o que fora apresentado no show histórico de 1962:

Samba do avião, Samba de uma nota só, Corcovado,  A bênção, Garota de Ipanema, Ela é Carioca, Só danço Samba, Samba de Verão, Desafinado, Chega de Saudade…

E então chegou a vez de Carolina.  Sua primeira música foi:

É, só eu sei
Quanto amor eu guardei
Sem saber que era só pra você
É, só tinha de ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você
É, você que é feita de azul
Me deixa morar nesse azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonita demais
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim
Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

[Só tinha de ser com você, de Tom Jobim  e Aloysio de Oliveira, 1964].

A segunda canção reproduziria ali uma cena vivida por Herlinha: a primeira vez que o marido, Luiz Roberto, cantou para ela aquela música interpretada agora por Carolina:

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê
Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois

[Minha Namorada, Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, 1962].

Herlinha chorou.


Janeiro de 2008 – baseado em fatos reais. A Carolina do conto sou eu, o convite foi feito mesmo pelo pessoal do Clude do Choro de Santos, a Herlinha realmente existe e tem este nome mesmo, uma pessoa incrível e que me emocionou muito nesta noite, escrevi para ela este conto (e ela só esta sabendo disso agora lendo este blog) e mandei para um concurso de contos que tinha como tema MPB,  foi classificado entre os melhores contos enviados.

Para você Herlinha.

One Response to “• Minha Namorada”

  1. 1
    Daniela Marino Says:

    Emocionante para quem lê também! Parabéns!

Leave a Reply