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• ele e ela

* Conto classificado entre os melhores apresentados em concurso literário de abril de 2009.  Sei que é grande demais para leitura em vídeo mas acho que vale a pena  : )


Ela:

Nasceu em uma manhã de sol, no início da alvorada.

Para a surpresa dos médicos que fizeram o parto, a garotinha mais parecia sorrir com as primeiras palmadas do que chorar.

Cresceu com uma profunda paixão pela cor roxa.

Talvez porque sua mãe, antes dela nascer, havia sido tomada por um imenso desejo por jabuticabas. Ela, a mãe, as comia sem parar.

No dia do parto havia saído de casa com algumas na mão que as deixaram rosadas devido ao calor.

Curiosamente, depois do parto, perdeu a vontade e o desejo pelas pequenas frutinhas. Ficou anos sem comer sequer uma jabuticaba. Passou a comer carambolas. Grandes, doces e amarelas.

Mas a filha, nem carambolas, nem jabuticabas, na verdade nunca havia visto uma jabuticaba. Gostava das frutas mais vermelhas como morangos, caquis, maçãs.

A pequena menina as confundia sempre. Havia nascido com alguma tendência a ser meio confusa, atrapalhada, sabe?

Dava de encontro com os móveis, tropeçava e pegava as frutas erradas.

Até que descobriram, aos 9 anos de idade, que precisava de óculos.

No seu aniversário de 10, passou a usar grandes óculos lilases: presente da tia.

Passou a ler e escrever mais: ganhou um livro e um diário, presente da avó.

E conheceu as jabuticabas, uma caixa delas: presente do pai por causa do gosto da filha pela cor roxa. O último presente do pai, já que ele faleceu uma semana depois.

Então, as jabuticabas passaram a ser um símbolo do pai para a garota.

E fizeram a mãe esquecer as carambolas e voltar a ter as mãos rosadas.

Ela cresceu apaixonada pelos livros, por escrever, e sempre que podia levava, da rua para casa, várias daquelas pequenas frutinhas arroxeadas que enchiam a casa de um aroma doce, lilás, e faziam sua mãe sorrir.

Comprava as jabuticabas de um quitandeiro que tinha uma barraca ao lado de onde trabalhava: a biblioteca da cidade.

Toda semana passava lá e levava um cesto delas. Sempre as quintas-feiras.

Era conhecida na rua como a garota das jabuticabas.

Até que um dia não pode ir na quinta. Foi em uma sexta e quando chegou lá as frutas tinham acabado. Só havia carambolas, grandes, doces e amarelas.

Na quinta em que não pôde ir comprar as jabuticabas parecia que tudo conspirava contra ela.

Começou que logo cedo, ao sair de casa para a biblioteca, uma bicicleta quase a atropela. Um rapaz de olhos azuis, cabelos negros e muito apressado passou correndo com uma bicicleta gritando:

— Olha a frente!!!

O susto foi grande. Fez com que se escorasse na árvore em frente.

Sujou-se. Teve de voltar e trocar de roupa.

Atrasou-se para o trabalho.

Toda quinta ela também tinha costume de ir até um antiquário, antes do trabalho, e ver as peças novas que o velho, simpático, barbudo, que usava um relógio de bolso, havia recebido. Adorava também ver os grandes livros antigos que ele expunha.

Mas naquela quinta não pôde ir pela manhã, estava atrasada. Foi quando saiu do trabalho.

Lá, ficava observando os objetos e ouvindo as histórias daquele senhor.

Acabava sempre saindo com algum livro ou postal antigo, já que ele também os vendia. Mas para aquela garota simpática que o ouvia, ele dava sempre algum mimo.

Mas não era por isso não que ela ia até lá. Ia pelas histórias.

Naquele fim de tarde havia mais postais do que de costume. O velho explicou que era porque seu filho havia deixado um novo lote, que recebera pelo correio naquela manhã, e que alguns eram de fotos desse filho.

Ganhou um deles.

Mas nesta quinta-feira ele estava com um problema. E, então, o velho barbudo com relógio de bolso, disse com um ar preocupado:

— Meu filho saiu daqui bem, mas depois passou mal, está de cama agora. É que ele sempre vem fechar a loja para mim. Não consigo abaixar estas grades.

Prontamente, ela disse que faria isso por ele. Ficaria lá até o momento de fechar o antiquário e abaixaria as grades.

E ficou.

Por isso, não foi comprar as jabuticabas. Fez isso na manhã seguinte, uma sexta-feira, mas elas haviam acabado. Só restavam as carambolas, grandes, doces e amarelas.

Dirigiu-se cabisbaixa para o trabalho e antes de entrar nem reparou em um rapaz de olhos azuis e cabelos negros que saia apressado e… trombaram-se.

Alguns livros caíram no chão.

Olharam-se e ela pensou que já havia visto aquela pessoa antes.

***

Ele:

Nasceu em um fim de tarde ensolarado, no início do crepúsculo.

O pai, no momento de seu nascimento, consultou o relógio de bolso e depois logo tratou de registrar o fato com muitas fotografias.

O garotinho demonstrava gostar do clique da máquina e até parecia sorrir.

Talvez por isso havia crescido com forte paixão por imagens, fotografias e registros históricos. Por esse gosto, e por ser o pai um antiquário, em seus aniversários os presentes mais constantes eram:

Livros sobre história e arte: presente da tia.

Brinquedos de montar miniaturas de palácios: presente da avó.

Coleções de postais antigos: presente da mãe que sempre lhe dava uma série deles a cada aniversário.

No aniversário de 15 anos conheceu as imagens, ganhou a primeira máquina fotográfica: presente do pai.

Passou a fotografar. Após a morte da mãe, passou a vender as fotos como postais. Era uma forma de homenageá-la

Os vendia na biblioteca da cidade e na loja do pai, que depois de tantos anos havia se tornado um antiquário velho, barbudo, muito simpático com o seu antigo relógio de bolso.

Ele abria e fechava todo dia a loja do pai que não tinha mais força para abaixar e levantar as grades.

Todas as quintas-feiras ele acordava bem cedo, com a alvorada, para pegar a nova leva de postais e materiais da loja do pai que chegavam pelo correio. Juntava tudo aos postais feitos por ele.

Abria o antiquário e entregava alguns dos postais na biblioteca da cidade. Tinha de fazer isso antes dela abrir para o público.

Mas naquela quinta, perdeu a hora.

Saiu correndo de casa com a bicicleta e nem reparou em uma jovem à sua frente, de cabelos negros, cacheados e olhos grandes, escuros, redondos, quase roxos.

Pediu que ela saísse da frente, mas quase a atropelou.

Olhou por segundos para trás e viu aquela bela garota com um ar assustado e bravo encostar-se em uma árvore para não cair.

Não podia voltar e pedir desculpas. Tinha muita pressa. Estava atrasado.

Pegou rapidamente o material da loja do pai no correio e foi direto abrir a loja.

Levantou as pesadas grades, antes ainda do sol aparecer firme. Arrumou as novas peças e esperou o pai.

Logo que ele chegou mostrou os novos postais, que acabaram ficando ali em cima do balcão.

Resolveu, então, ir até a biblioteca entregar alguns, mesmo fora do horário. Conseguiu deixá-los mas não pôde receber. A atendente pediu que voltasse no dia seguinte, sexta-feira, na hora em que abrissem.

Faria isso então.

Foi embora, e no caminho de casa, assim que saiu da biblioteca, viu um quitandeiro, com uma barraca que exalava diversos aromas de frutas que não conhecia.

Nunca havia encontrado esta barraca aberta ali porque sempre passava muito cedo.

Parou para escolher algumas frutas e entre tantas que não conhecia como carambolas, seriguelas, tamarindos, escolheu um último cesto com uma porção de frutinhas pequenas, redondas e arroxeadas.

Experimentou. Gostou.

Naquele momento, não entendeu bem o porque de ter lembrado da bela garota que quase atropelou com a bicicleta e pensou que ela tinha olhos grandes e redondos, como os daquelas jabuticabas.

Foi para casa e comeu todo o cesto das frutinhas.

Passou mal, não que elas fizessem mal, não. Mas havia exagerado porque tinha adorado aquele sabor doce e arroxeado.

Não pode fechar a loja do pai naquele fim de dia.

Espantou-se ao ver o pai chegar em casa mais cedo que disse:

— Uma bela garota, muito simpática de grandes olhos redondos fechou a loja para mim, ela gostou muito de seus postais, dei alguns a ela.

Chegou a pensar que pudesse ser a mesma garota que quase atropelou e pediu que o pai o avisasse quando ela fosse entregar as chaves da loja.

Quando lá chegou ele estava dormindo. Não se conheceram.

Na manhã seguinte, não tão cedo, já que ainda se recuperava, saiu apressado para receber o valor da entrega dos postais que havia feito na quinta anterior.

Na saída da biblioteca não reparou em uma garota que vinha cabisbaixa pela rua… trombaram-se.

Alguns livros caíram no chão.

Olharam-se e ele pensou que já havia visto aqueles grandes olhos antes.

*********

Os anos se passaram. Não se conheceram.

Ela nunca mais havia ido ao antiquário ao final da tarde.

Mas sempre levava um postal do filho do velho simpático, barbudo e de relógio de bolso.

Casou. Ficou grávida duas vezes. Na primeira teve desejo de carambolas, grandes, amarelas e doces.

Na segunda vez, em uma manhã de sol, no meio da alvorada, foi tomada por um forte desejo de comer jabuticabas. Lembrou da mãe. Pediu para que a filha, de 10 anos, conseguisse algumas ao final do dia, já que eram muito fortes para aquela hora da manhã.

Ele continuou indo a biblioteca antes de abrir.

Mas sempre comia jabuticabas e lembrava dos grandes olhos de alguma garota de seu passado.

Casou. Teve dois filhos, dois garotos. Ele e o mais velho tocavam o antigo antiquário. O relógio de bolso do velho pai barbudo havia dado ao filho mais velho.

Quando o segundo filho nasceu plantaram uma árvore no quintal da casa. O filho tinha agora 12 anos.

Era uma quinta-feira, um fim de tarde no meio do crepúsculo.

Uma garotinha loira, de grandes olhos redondos e arroxeados, atravessa a rua e pede ao seu amigo, o filho mais novo de 12 anos do vizinho, se ele poderia lhe dar algumas frutinhas da jabuticabeira de seu quintal.

Disse que era para sua mãe que estava com desejo de jabuticabas, pois etava grávida.

O garoto subiu prontamente na grande árvore e pegou algumas frutas, colocou no cesto. O pai o observava de longe e viu quando eles deram as mãos e atravesarram a rua juntos.

A garotinha loira, de olhos grandes, agradeceu com um suave beijo no rosto e levou as pequenas frutas para a mãe.

O garoto contou ao pai.

E pela última vez, olhando aquela linda mulher de lilás, que morava em frente a sua casa e que tinha cabelos negros, olhar redondo e arroxeado, recordou da garota dos livros da biblioteca.

Seus filhos?

Casaram e plantaram, no quintal, uma grande árvore de frutas doces, grandes e amarelas.

3 Responses to “• ele e ela”

  1. 3
    Amanda Says:

    interessante! valeu a pena achar a sua pagina,

  2. 2
    Argemiro Antunes (Miro) Says:

    Márcia, você fez uma história cinematográfica. As histórias paralelas, que de vez em quando ficam no quase, e afinal, a vida continua nos filhos, com o uso do lilás predominando, com esses toques de amarelo, dá um resultado plástico ótimo. Não sei se v. conhece “Kaidan” (As 4 Faces do Medo, no Brasil) do grande diretor Masaki Kobayashi, um dos mais belos filmes que vi. Lendo sua história, pensei em uma das quatro histórias do filme, “A Mulher da Neve”. Não o tema, mas as cores. Talvez eu esteja viajando, mas é um lance que me veio à cabeça.

  3. 1
    Deborah Okida Says:

    Muito bom.
    Talvez eu esteja sem palavras para descrever.
    Então, apenas digo que através das tuas palavras, realizo também meus sonhos…
    Parabéns! Sinto muito orgulho de vc!
    Amo vc!
    Beijos!

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