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Tengo miedo del encuentro / Con el pasado que vuelve / A enfrentarse con mi vida… / Tengo miedo de las noches / Que pobladas de recuerdos / Encadenan mi soñar… (trecho da múisca tema do filme)
Sempre torci para que este cartaz fosse escolhido na votação. Sinal que não manipulo a escolha de vocês porque, por mim, ele já estaria aqui há algum tempo. Não só porque o cartaz é lindo, mas também pelo filme, por Almodóvar e pela música Volver que adoro.
Mas vamos falar de design e de cartaz de filme.
Como sempre começo pela linha de leitura que neste caso é simples, totalmente na vertical, ou seja, começamos lendo “um filme de Almodóvar” depois partimos diretamente com nosso olhar para o nome do filme, “Volver” , grande, abaixo, sustentando a informação visual com sua tipografia que é forte, porém simples, em um estilo “stencil” que nos remete a estampas, carimbos, moldes vazados, feitos manualmente, assim como lembra as tipografias encontradas pelas ruas e lugares simples da cidade.
Quando olhamos este cartaz temos a sensação que possui uma divisão centralizada. Mas ao fazermos esta divisão — centro vertical e centro horizontal — perbemos que não. A imagem — rosto de Penelope Cruz — foge levemente do centro na vertical para esquerda. Esta linha divisória — a vertical — tem mais força para a leitura gráfica (no caso deste cartaz), do que a horizontal, sem informações importantes em sua área.
Esse deslocamento leve de centro dá mais força à composição, mais movimento. Uma imagem no seu centro perfeito é sempre mais estática, por possuir uma comunicação direta demais.
Olhando essa divisão central já percebemos que a força está na flor, posicionada no retângulo superior direito, e que parece comunicar-se com o olho esquerdo dela.
Isso ocorre pela divisão áurea do cartaz. O olhar dela está posicionado na linha áurea superior. Seus olhos não estão alinhados horizontalmente, o centro do olho esquerdo está levemente mais para baixo que o direito, dando a sensação de um olhar direcionado para cima e para fora do cartaz.
Esta linha que divide geometricamente a área do olhos, nos leva a um dos elementos principais do cartaz: a flor. O outro elemento de linguagem forte neste cartaz é a cor: vermelho.
Lógico que a personagem também é forte, mas o fundo, que por uma relação de gestalt — figura e fundo —, troca de olhares com a flor principal dá, a este conjunto, uma maior força na proposta de linguagem.
O filme trata de morte.
Logo no início temos a morte do marido de Raimunda — Penélope Cruz — assassinado pela filha. A seguir, ela é convidada para ir ao velório de uma tia e depois descobre que sua mãe — que pensava estar morta — voltou, está viva. E é assim falando sobre vida e morte, mostrando a relação entre tantas mulheres — mães, tias, filhas, vizinhas etc — que Volver acontece.
Aí você pode pensar “aonde está a morte neste cartaz?”.
Nas flores, na cor e no seu olhar.
A cor: o vermelho sempre foi considerada a cor da vida e da morte. Do sangue, da paixão, da tragédia, uma cor feminina, sexual e atraente. Temos tudo isso neste cartaz.
O vermelho de fundo — e que existe em algumas flores — representa o sangue no chão, a morte.
O posicionamento e acabamento das faixas vermelhas no cartaz — parte de cima e de baixo— pode nos passar a idéia de que o cartaz era todo vermelho, mas alguém o limpou e surgiu a imagem.
Já o vermelho da flor no cabelo, imprime na peça gráfica o caráter sexual, feminino, forte da personagem envolta em tragédias que já são presentes desde o início do filme nas cenas acima. Este vermelho nesta cena se reforça nas flores que surgem quando um papel toalha é encharcado de sangue. Neste momento, algo que poderia ser feio, tétrico, torna-se poético, pois o sangue colore aos poucos os detalhes do papel toalha tornando-se similar a uma renda, um crochê de flores — mais para frente no filme esta imagem vem a mente quando a mãe de Raimunda veste um casaco de linha branco, com textura similar a este papel toalha.
As flores: flores são dadas como presentes mas também são colocadas nos caixões, velórios, funerais como homenagem aos mortos. Algumas flores deste cartaz, são similares aos desenhos representativos de algumas flores consideradas características da morte como o Lírio e o Cravo, este último flor símbolo da Espanha.
Em diversos momentos as flores estão nos figurinos (imagem acima), cenografias, azulejos, pias, ruas etc., bem ao estilo visual de Pedro Almodovar. Mas nenhum outro cojunto de flores é tão importante quanto ao que existe no fundo deste cartaz. Estas flores fazem parte do figurino de Raimunda no momento em que ela vê o corpo do marido assassinado pela filha e limpa o chão sujo de sangue (cena que dá origem a do papel toalha comentada anteriormente).
É com uma saia com esta estampa que ela limpa o sangue, arruma e esconde o corpo do marido. Esta sequencia, das imagens acima, resulta em uma das melhores cenas do filme e que você pode ver aqui ao lado: cena da morte – volver
Outra relação direta deste fundo é quando Raimunda canta Volver — são as flores minúsculas em preto e branco do cartaz que nos remetem ao casaco da mãe — que a observa cantando — e com a cena anterior quando Raimunda limpa o sangue no chão com folhas de papel toalha que parece tingir-se de flores vermelhas.
O olhar de Raimunda: ela olha para fora, não possui um olhar de felicidade. Não usa batom vermelho e também não sorri. Seu batom é rosa claro e o ponto mais forte de seu rosto é este olhar, que busca a flor. Parece estar pensando em algo que pode ser de seu passado ou futuro.
Apesar de todas as cores que a rodeiam esta mulher do cartaz não está feliz. Sua fisionomia demonstra exatamente o que diz o nome do filme “Volver” — voltar, retornar — e um trecho da música tema:
Tengo miedo del encuentro / Con el pasado que vuelve / A enfrentarse con mi vida… / Tengo miedo de las noches / Que pobladas de recuerdos / Encadenan mi soñar…
Tenho medo do encontro com o passado que volta para enfrentar minha vida. Tenho medo das noites que povoadas de recordações acorrentam os meus sonhos.
Se tivesse que escolher uma frase para representar este cartaz, seria esta última da música. Este cartaz mostra uma mulher com medo das noites que povoadas de recordações, acorrentam os seus sonhos.
Este é o cartaz de Volver, assim também é o filme: belo e imperdível.
Um filme que podemos ver milhares de vezes e sempre será ótimo. Recomendo.
Saiba mais sobre o filme no Site de Volver







setembro 29th, 2011 at 18:30
Sou amante dos cartazes feitos para os filmes de Pedro Almodóvar, em especial esse feito para o filme Volver. Se pararmos para analisar, ele realmente tem uma série de sentidos implícitos, assim como nos cartazes feitos para os outros filmes do cineasta. Curti demais essa tua leitura da imagem, espero encontrar mais análises dos cartazes de Almodóvar por aqui. Parabéns! Beijos
fevereiro 9th, 2011 at 21:32
eu assisti esse filme na aula de espanhol, em espanhol .-. mto bom,eu gostei :]
novembro 16th, 2010 at 16:23
Oi Marcia, parabéns pela análise. Curti muito essa sacada das flores e das manchas. Muito bom!
Gosto desse filme, vi no cinema. Vermelho e mulheres já são a marca de Almodóvar, né?
novembro 13th, 2010 at 17:05
Olá Okida!
Adoro esse filme tb, e, sempre achei esse cartaz muito lindo.
Curti mto a análise desse cartaz, muito show mesmo. ;D
Bjuss =**
novembro 10th, 2010 at 12:44
Olha realmente fiquei embasbacado com a leitura desse cartaz. Foi algo unico e acima de tudo está tudo ali bem claro basta prestar um pouco mais de atenção…
Parabéns Okida bjus
novembro 7th, 2010 at 20:56
Que análise pertinente, não só pelo viés comunicacional e suas ferramentas, mas principalmente pela poesia e beleza – linha central de mais uma obra-prima de Almodóvar.
Parabéns.